quarta-feira, 12 de maio de 2010
Cultura do Remix
Os samplers surgiram. Ofereceram a possibilidade de transformar as músicas, tornando-as mais eletrônicas, jazzísticas ou clássicas. Cada composição, então, poderia se transformar em um fragmento, passível de manipulação por um DJ – vale ressaltar que, historicamente, o procedimento surgiu nos subúrbios das grandes cidades norte-americanos, como Detroit, em festas de hip hop.
A partir de então, o ato de apropriar produções culturais e de dar a elas novo tratamento passou a assumir um sentindo mais generalizado. Conforme Marcus Bastos, em seu ensaio “Cultura da Reciclagem”, “(...)o scanner pode ser usado como um sampler de imagens, o OCR como um sampler de textos, o bloco de notas como um sampler de código-fonte(...)”. Seguindo uma ideia mais sintonizada com a globalização da contemporaneidade, o ser humano, juntamente com todas as novas mídias digitais, é um sampler ambulante. Ele tem, em mãos, todo o material necessário para (re) formular, fabricar, criar, inventar...
No passado, o que era compartimentado e cartesiano, hoje se interliga. Antes, cinema era só cinema, dinheiro era só dinheiro, ciência era só ciência e religião era só religião. As áreas do conhecimento humano pareciam não se ligar, assim como a divisão em seções de bibliotecas não mostram a extrema fusão existente entre os mais variados assuntos. Hoje, o cinema está para o dinheiro assim como a ciência está para a religião: enlaçados em uma relação de amor e ódio.
Pode-se falar, agora, da cultura do remix vivida pelo homem global. Ao contrário da antiga crença de que a globalização criaria um padrão único de vida, a liberdade de criação possuída pelo ser humano, depois do surgimento das novas mídias, mostra justamente o contrário. As músicas são recriadas e influenciadas, agora, pela literatura e pelo cinema; o aquecimento global atinge a moda; a comida pode ser material de arte, como se vê na obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz. Um exemplo utilizado por Marcus Bastos para confirmar a sua tese de que a liberdade de criação está cada vez maior é o de Rick Silva, que mistura no disco conceitual Networked Voices, remix da homenagem de Terry Southern a Luis Buñuel, referências da literatura e da música pop.
Apesar da idéia difundida de que o ser humano tem se tornado mais individualista no mundo contemporâneo, a produção cultural tem abrangido uma áurea bastante universal. Hoje, o conhecimento parece ser de todos, pois ele é passível de constante apropriação e reformulação. Se o século 20 está marcado pela fortificação do conceito de autoria, com o surgimento das máquinas fotográficas e dos gravadores de som que possuem o encargo de registrar, o século 21 quebra as fronteiras anteriormente criadas. As regras dos tempos atuais são: expor, distribuir e trocar, assim como acontece nos remix.
Bárbara Buril
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